quinta-feira, 23 de julho de 2026

A cultura do dinheiro

 


Imagem gerada por IA 

 

 

Se calhar o erro é meu, pois não conheço a nossa Ministra da Cultura (a cujo ministério, para ser mais preciso, se deve acrescentar a Juventude e o Desporto). É certo que podia saber muito mais sobre ela se me desse ao trabalho de pesquisar um pouco, de ler a sua página na Wikipedia, de coscuvilhar na Internet, mas confesso que não tenho paciência para isso, até porque o que tenho ouvido (lido, melhor dizendo) recentemente me tira a vontade.

 

O nível cultural no nosso país não se pode considerar elevado. É certo que quase tudo é Cultura e, se nos referirmos a feiras com “comes e bebes”, a festivais de verão, a convívios, etc., então retiro o que disse. Nisso somos bons, mesmo muito bons! 

 

Quero esclarecer desde já que não sou daqueles elitistas que acham que Cultura é algo que tem de ser muito seleto – snob, até – pois, como bom português, agradam-me muito todo o tipo de eventos designados “populares”, para as massas, nas quais me incluo claramente. Mas quando a Cultura exige um pouco mais de conhecimento, de trabalho intelectual, de estudo, até, aí não somos nada bons. 

 

A prova disso é que muitos museus e monumentos estão “às moscas”, com níveis muito baixos de visitantes. Há exceções, claro, principalmente se considerarmos os grandes museus e monumentos do país, mas, mesmo esses, são frequentados, na esmagadora maioria, por ... estrangeiros.

 

Por isso achei que a iniciativa de conceder a todos os cidadãos portugueses cinquenta e dois dias de acesso gratuito por ano a alguns – apenas alguns – museus e monumentos, era algo extremamente meritório. Ao menos que o custo do acesso a esses locais não fosse um entrave – a acrescentar a tantos outros – ao acesso à Cultura, a uma maior valorização da nossa História e do nosso património, por parte do grande público. Parabéns! Gostei da iniciativa!

 

Mas eis que surgem agora relatos de várias preocupações expressas pela nossa Ministra da Cultura (e de mais algumas outras coisas, como referi atrás): que, não sendo contra, a iniciativa dos cinquenta e dois dias viola normas europeias (boa desculpa!), que há que valorizar mais a Cultura, que o Estado já perdeu vários milhões de euros com a iniciativa, etc., etc., etc..

 

Claramente, há um discurso consistente, que aponta para uma direção, mas todos queremos perceber melhor qual é. Valorizar a Cultura significa pagar? O Estado perde quando os seus cidadãos se tornam culturalmente mais ricos? Há alguma norma europeia que diga que o acesso à Cultura tem de ser pago? 

 

Precisamos de esclarecimentos, de uma posição clara e inequívoca. Tudo está muito confuso! Afinal, em Portugal, em que consiste a Cultura? Interessa, claramente, vender a cultura portuguesa aos estrangeiros que nos visitam e que recebemos com muito gosto. Mas quanto aos portugueses, qual é a política? O que se pretende? Talvez para quem nos governa, como em muitos outros casos, o valor mais alto seja o da “cultura do dinheiro”! Para isso, talvez não precisemos de um Ministério da Cultura, bastando-nos o Ministério das Finanças. Afinal, contas feitas, talvez com menos um ministério sobre algum dinheirito para apoiar a Cultura em Portugal.